CARTAS DA CURADORA
Por Romanna Remor

Algumas lembranças não voltam quando abrimos um álbum de fotografias. Voltam quando sentimos um aroma, repetimos um gesto ou preparamos uma bebida.

Há perguntas que parecem simples, mas, quando pensamos por alguns minutos, acabam revelando verdades tão belas. Esta é uma dessas perguntas: existe uma bebida que faz você lembrar do seu pai? Não necessariamente a bebida preferida dele, mas aquela que, sempre que você prepara, sente o aroma ou vê alguém fazendo, parece trazer uma lembrança de volta.

Achei curioso pensar nisso. Porque costumamos associar as memórias às músicas, aos perfumes ou aos lugares, mas, para mim, algumas das lembranças mais vivas moram justamente nas bebidas e nas pessoas que as preparavam.

Quando eu era pequena, meu pai trabalhava em Florianópolis, enquanto nós morávamos em Criciúma, as férias escolares eram o tempo em que finalmente podíamos estar juntos. Curiosamente, as lembranças mais vivas que guardo dele não são de grandes viagens ou presentes, mas são de duas receitas muito simples. Todas as manhãs, ele fazia questão de preparar ovos cozidos para nós, mas não de qualquer jeito: o ponto da gema era perfeito. Ele quebrava delicadamente o topo da casca, colocava uma pitada de sal e, algumas vezes, ainda nos dava a primeira colherada na boca. Hoje percebo que aquilo nunca foi apenas o café da manhã. Era uma forma silenciosa de dizer: “Estou feliz por vocês estarem aqui.

Depois vinham as vitaminas. Naquela época ninguém falava em smoothies, mas meu pai já misturava frutas, leite fresco e mel até formar uma espuma generosa. Talvez tenham sido as primeiras bebidas preparadas com carinho que experimentei na vida.

Meu pai faleceu quando eu ainda era criança. Ele nunca conheceu a 1401, nunca provou um Matcha, nem experimentou um Rooibos Espresso. E, às vezes, eu me pego imaginando qual seria a primeira bebida que prepararia para ele hoje. Acho que seria justamente um Rooibos Espresso, não porque ele substitua o café, mas porque eu adoraria assistir ao instante em que ele descobriria que um espresso também pode nascer de outra planta. Imagino o sorriso, a curiosidade, as perguntas que certamente faria.

E foi pensando nisso que compreendi algo: talvez um dos presentes mais bonitos que um filho possa oferecer ao pai não seja apenas um objeto, talvez seja uma descoberta. Não apenas reforçar aquilo que ele já conhece, mas dizer: “Pai, quero compartilhar com você algo que passou a fazer parte da minha vida.

Percebi que foi exatamente assim que tantas plantas atravessaram gerações, não porque alguém decidiu preservá-las, mas porque alguém as apresentou a outra pessoa. Foi assim com o chá, com a erva-mate, com tantas bebidas que hoje fazem parte da cultura de diferentes povos.

Primeiro veio uma descoberta. Depois, um ritual. Mais tarde, uma tradição. Na 1401, gostamos de pensar que a Curadoria também cumpre esse papel, não escolhemos apenas plantas extraordinárias, escolhemos histórias que merecem continuar sendo compartilhadas.

Talvez seja por isso que gosto tanto da palavra descoberta, ela nunca termina em quem descobre, quase sempre continua em quem decide compartilhar.

Neste Dia dos Pais, talvez o presente mais bonito não seja apenas uma caixa. Talvez seja preparar uma bebida juntos, sentar sem pressa, conversar e criar uma memória que, daqui a muitos anos, volte à lembrança sempre que aquele aroma preencher novamente a casa.

Porque algumas bebidas matam a sede, enquanto outras, acabam se transformando em lembranças.

Romanna Remor
Curadora da 1401 Chá