CARTAS DA CURADORA
Por Romanna Remor
Da tradição japonesa de Uji às montanhas de Cederberg, conhecer a procedência é parte essencial da nossa curadoria — e daquilo que entendemos como qualidade.
Nosso Matcha, nós sabemos de onde vem. Ele não é apenas japonês, ele vem de Uji, no Japão. E isso, para nós, importa.
Conhecemos a família que o produz, uma família centenária cuja linhagem acumula reconhecimento e premiações. Conhecemos a propriedade, a região e a história que existe por trás daquela pequena porção de pó verde que, depois de alguns movimentos de preparo, chega à nossa xícara.
Talvez seja por isso que, quando falamos de curadoria na 1401, a palavra procedência tenha tanto peso. Porque procedência não é simplesmente saber o país que aparece no rótulo, mas é saber onde uma planta cresceu, quem a semeou, como foi cultivada, colhida e processada. E, quando possível, conhecer as pessoas que estão por trás de tudo isso.
Uma xícara começa muito antes da água
Nossa Erva-Mate vem do Rio Grande do Sul, cultivada com práticas de cultivo regenerativo que respeitam o solo e o meio ambiente. Sabemos quem cultiva, como cultiva e como a planta é processada.
É uma tradição genuinamente brasileira — o sabor do chimarrão que conhecemos desde sempre, agora reinterpretado em uma nova forma. Refrescante, levemente adocicada, rica em antioxidantes, minerais e vitaminas. Uma fusão entre inovação e raízes, entre o que a planta sempre foi e o que ela pode se tornar em nossas mãos.
Nosso Rooibos Espresso e nosso Rooibos tipo Matcha vêm das montanhas de Cederberg, na África do Sul — a cerca de 250 quilômetros ao norte da Cidade do Cabo. É um lugar que faz parte do Reino Floral do Cabo, uma das regiões de maior biodiversidade vegetal do planeta. Ali, o clima é extremo — verões quentes e secos, invernos de chuvas escassas, solos arenosos e ácidos — e é justamente nessas condições que o Rooibos encontrou seu único habitat possível.
Depois de milhares de anos de adaptação, essa planta nunca foi reproduzida comercialmente com o mesmo sucesso em nenhum outro lugar do mundo. Conhecemos os fundadores e os proprietários. Conseguimos rastrear sua origem até o ponto de onde aquela planta vem.
E há também o Blue — nossa versão em pó da Clitoria ternatea, a flor conhecida como fada azul. Ela vem da Tailândia, cultivada de forma sustentável, e carrega uma tradição que atravessa países como a própria Tailândia e a Índia, onde aparece em práticas ancestrais do Ayurveda.
Não é só uma questão de origem geográfica. É também uma questão de significado: uma planta usada há gerações em rituais de bem-estar, que agora chega até nós em uma nova forma.
E os chás da Organic India, que fazem parte da nossa curadoria, também têm origem, parceiros e histórias que conhecemos. A marca nasceu em 1997, na Índia, unindo a sabedoria ayurvédica às práticas mais avançadas de agricultura orgânica regenerativa. Trabalha em parceria com milhares de pequenos agricultores — em sua maioria mulheres — oferecendo treinamento, apoio financeiro e segurança comercial.
Tivemos a oportunidade de visitar a fábrica e conhecer de perto algumas dessas áreas de cultivo. Conversamos com os agricultores que cuidam da terra e sentimos, na prática, que aquilo era mais do que um processo industrial: era um trabalho de amor.
Percebe o que há em comum? Nós sabemos de onde vêm muitas das plantas que colocamos na nossa xícara. E isso muda a maneira como fazemos escolhas.
O território também entra na xícara
Uma planta não existe separada do lugar onde cresce. O solo, o clima, a altitude, as estações, o manejo, a colheita e o processamento podem influenciar suas características e o perfil que finalmente percebemos na xícara. É por isso que a origem pode aparecer de tantas maneiras diferentes: no aroma, no sabor, nas nuances, na textura, na intensidade, na experiência.
O Rooibos, por exemplo, carrega notas naturalmente adocicadas que evocam mel, baunilha e caramelo — um sabor que não se parece com o de nenhum chá tradicional, porque nasce de um ecossistema que não existe em nenhum outro lugar do planeta.
Conhecer a procedência não é apenas conhecer uma coordenada no mapa, é começar a compreender por que aquilo que está na sua xícara é como é.
De fornecedor a parceiro
Existe ainda uma dimensão da procedência que não cabe em uma etiqueta: as pessoas.
Na 1401, alguns dos nossos fornecedores se tornaram parceiros. Não são apenas nomes em uma ordem de compra ou empresas com as quais trocamos e-mails, mas são pessoas que conhecemos, algumas cujas mãos apertamos. Pessoas com quem já sentamos à mesa, tomamos uma boa xícara de chá, ouvimos histórias e conversamos sobre o que ainda podemos construir juntos.
Porque uma cadeia de produção também é feita de relações humanas. E quanto mais conhecemos essas relações, mais responsabilidade sentimos pela escolha que fazemos.
E você: sabe de onde vem o que consome?
Talvez você nunca tenha parado para pensar nisso: De onde vem o seu matcha? Quem cultivou? Onde ele cresceu? Como foi processado?
E a sua Erva-Mate? O seu chá? O Rooibos? O Blue? O alimento que você coloca diariamente à mesa?
Não é possível conhecer a história de tudo o que consumimos. Mas talvez valha a pena começar por aquilo que consumimos com frequência. Na 1401, é assim que fazemos nossa curadoria: buscamos conhecer as plantas, seus territórios e as pessoas que fazem parte de suas histórias.
Do Matcha de Uji à Erva-Mate do Rio Grande do Sul. Do Rooibos das montanhas de Cederberg ao Blue cultivado na Tailândia. Dos chás da Organic India, cultivados por pequenos agricultores indianos, a cada nova descoberta que ainda está por vir.
Uma origem de cada vez. Uma história de cada vez. Uma descoberta de cada vez.
Porque, para nós, procedência é sinônimo de qualidade. E talvez conhecer a origem seja uma das formas mais bonitas de conhecer aquilo que bebemos.
Romanna Remor
Curadora da 1401 Chá
