Esta é uma dúvida legítima. E merece uma resposta à altura: nem alarmista, nem simplista. Porque a ciência aqui é mais interessante — e mais generosa — do que a maioria dos conteúdos sobre o tema costuma revelar.

Vamos conversar sobre isso com calma.

O que os estudos dizem

Há algumas décadas, pesquisadores começaram a investigar a interação entre a caseína — a proteína do leite de vaca — e as catequinas, que são os principais antioxidantes presentes no chá, planta proveniente da planta Camellia sinensis. Os resultados mostraram que a caseína se liga às catequinas, formando complexos que reduzem a biodisponibilidade desses compostos. Em outras palavras: o seu corpo absorve menos do que aquilo que a bebida oferece.

Vale dizer que os estudos ainda divergem quando o assunto é quanto dessa atividade antioxidante é perdida — os números variam dependendo do tipo de chá, da sua origem, do processamento, da quantidade de leite e até do tempo de infusão. Mas a tendência é clara: há uma redução. Não é alarmante, não é catastrófica, mas ela existe.

O que essa ciência também nos mostra, porém, é que a história não termina aí. E é justamente no que vem depois que ela se torna mais interessante.

Por que o tipo de chá importa tanto

Quando falamos em "chá", estamos nos referindo a um universo muito mais vasto do que uma única planta ou um único preparo. E essa diversidade muda completamente a forma como devemos pensar na interação com o leite.

O chá verdadeiro — aquele proveniente da Camellia sinensis — passa por processos muito distintos dependendo da categoria. É justamente esse processamento o principal fator que define a quantidade e o tipo de catequinas, além do nível de oxidação das folhas. É essa variação na oxidação que determina a cor do chá como o conhecemos: Branco, Verde, Amarelo, Oolong ou Azul, Preto (chamado de vermelho na classificação chinesa) e Escuro.

As folhas para o processamento de chá verde são colhidas e submetidas rapidamente ao calor para interromper a oxidação, preservando assim as catequinas em maior concentração. O chá preto, por outro lado, passa por oxidação completa, o que transforma grande parte das catequinas em outros compostos — as teaflavinas e tearubiginas — que têm suas próprias propriedades, mas respondem de forma diferente à presença do leite.

Há ainda variáveis que vão além do tipo de chá. A origem geográfica, o terroir, a altitude em que a planta foi cultivada, a época da colheita e o método de processamento — tudo isso influencia a composição química final da folha. Um chá verde japonês cultivado em solo vulcânico, colhido na primeira colheita da primavera (conhecidos como first flush), terá um perfil de catequinas muito diferente de um chá verde chinês cultivado em planície. E essa diferença, por menor que pareça, é real e mensurável.

É por isso que respostas categóricas sobre chá raramente fazem justiça ao tema. O contexto é apenas parte da resposta.

Matcha: quando consumir a folha inteira muda tudo

O matcha merece um capítulo à parte — e é um dos temas que mais me fascina dentro do universo dos chás: os botânicos em pó ultrafinos.

Para entender o matcha, é preciso voltar à sua origem. Ele é produzido a partir do tencha, uma folha especialmente cultivada sob sombreamento nas semanas anteriores à colheita. Esse processo aumenta a produção de clorofila e de L-teanina, além de concentrar os compostos da folha de forma distinta. Após a colheita, as folhas são vaporizadas, secas e desfiadas para remover nervuras e talos — o que resta é então moído em moinhos de pedra até se transformar no pó finíssimo que conhecemos.

Diferente de qualquer outro chá, o matcha não é uma infusão. Quando você prepara um matcha latte, não está extraindo compostos para a água e depois descartando a folha. Você está consumindo a folha na sua totalidade. Isso altera completamente a equação.

Sim, a caseína do leite de vaca vai interagir com parte das catequinas do matcha. Um estudo de 2025 publicado na Phytomorphology investigou exatamente esse ponto, testando diferentes tipos de leite sobre a atividade antioxidante do matcha, e confirmou que o leite de vaca apresenta o efeito mais pronunciado entre os tipos avaliados. Mas a densidade de compostos presentes no matcha é tão superior à de qualquer chá em infusão que, mesmo com essa redução, a bebida mantém propriedades relevantes.

Se o objetivo é preservar ao máximo os benefícios, as bebidas vegetais são aliadas mais inteligentes. O mesmo estudo indicou que leite de amêndoa, aveia e coco interferem de forma bem menos significativa nas catequinas do matcha. Entre eles, o leite de aveia tende a criar uma textura mais cremosa — o que o torna um substituto bastante satisfatório para quem aprecia a experiência sensorial do latte.

Mas se o seu matcha latte com leite de vaca é um momento de prazer genuíno no seu dia, não há razão para abrir mão dele. A perda, repito, não é tão expressivaampouco o alarmismo em torno do tema faz parecer. O matcha continua sendo uma das fontes mais ricas de antioxidantes que a natureza nos oferece — com ou sem leite.

Rooibos: quando o latte e a saúde caminham juntos

Quando o assunto é latte com leite de vaca, o Rooibos ocupa uma posição verdadeiramente singular. E entender por quê exige compreender, primeiro, o que ele é — e o que ele não é.

O Rooibos (Aspalathus linearis) é uma planta nativa da região de Cederberg, na África do Sul, que não guarda nenhuma relação botânica com a Camellia sinensis. Tecnicamente, não é um chá — é uma infusão de ervas, o que em muitos países se chama de tisana. Mas sua riqueza funcional e sensorial o coloca em um patamar à parte no universo das bebidas quentes.

O Rooibos tradicional passa por um processo natural de oxidação, que é justamente o que dá à planta sua cor avermelhada característica e seu sabor naturalmente adocicado e amendoado. Mas o que nos interessa especialmente aqui é outro protagonista dessa planta: a aspalatina, seu principal composto antioxidante — e a peça-chave para entender por que o Rooibos se comporta de forma tão diferente quando encontra o leite.

A aspalatina pertence à família dos diidrochalconas — uma estrutura molecular completamente distinta das catequinas. Pela sua configuração química, estudos sugerem que as aspalatinas interagem de forma muito menos significativa com as proteínas do leite do que as catequinas, o que significa que a atividade antioxidante do Rooibos se preserva muito melhor em preparações com leite de vaca.

Há ainda outro aspecto que merece atenção: o Rooibos é naturalmente isento de cafeína. Isso o torna o latte ideal para o fim do dia — sem abrir mão do ritual, sem comprometer o descanso.

Na 1401, trabalhamos com Rooibos em pó — e essa escolha tem uma razão funcional importante. Ao utilizar o pó, você não está apenas extraindo compostos para a água: você está consumindo o Rooibos em sua integridade, com toda a riqueza de compostos que ele oferece. É uma forma de aproximar a lógica do matcha — o consumo da planta inteira — ao universo do Rooibos, potencializando seus benefícios de forma significativa.

Sobre as bebidas vegetais: qual escolher e por quê

Vale dedicar um momento a esse tema, porque a escolha da bebida vegetal também faz diferença — e não é apenas uma questão de sabor.

Do ponto de vista funcional, as bebidas vegetais não contêm caseína, o que já os torna mais interessantes para preservar as catequinas. Mas cada um tem suas características. O de aveia tem uma textura mais encorpada e um sabor levemente adocicado. O de amêndoa é mais leve e delicado, ideal para quem prefere que o sabor do chá se destaque. O de coco, por sua vez, traz uma cremosidade diferenciada e um toque exótico. Todas estas opções harmonizam perfeitamente com preparações tanto com o Matcha quanto com o Rooibos.

O leite de soja merece uma menção especial: embora também não contenha caseína, ele possui outras proteínas que podem interagir com os polifenóis do chá de forma similar — o que, according to alguns estudos, pode reduzir parte dos benefícios. Não de forma alarmante, mas é um ponto que vale considerar para quem busca maximizar a função antioxidante da bebida.

O que fica depois desta conversa

Não existe uma resposta única para a pergunta que abre este texto. Existe contexto, escolha e intenção.

Se você aprecia um matcha latte pela manhã, continue apreciando — e, se quiser, experimente uma bebida vegetal para comparar. Se o seu fim de tarde pede algo cremoso, reconfortante e funcionalmente equilibrado, o Rooibos latte é uma escolha que une prazer e consciência sem que você precise abrir mão de nenhum dos dois.

O que a ciência nos oferece, quando bem interpretada, não é uma lista de proibições. É uma bússola. E com ela, cada xícara pode ser uma escolha mais consciente — sem perder nada do que faz o chá ser tão especial: o aroma, o calor, o ritual, a pausa.

Porque alguns chás, como certos momentos, merecem ser vividos por inteiro.

Raquel Magalhães é Sommelière de chá, Nutricionista, especialista em Fitoterapia e Ayurveda.

Referências

Referências

Piyasena N. P. Milk in Tea: Exploring the Chemistry and Biological Activities. Food Science and Biotechnology, 2025.

Qie X. et al. Competitive Interactions Among Tea Catechins, Proteins, and Digestive Enzymes Modulate In Vitro Protein Digestibility, Catechin Bioaccessibility, and Antioxidant Activity of Milk Tea Beverage Model Systems. Food Research International, 2021. PMID: 33648275

Rashidinejad A. et al. Addition of Milk to Tea Infusions: Helpful or Harmful? Evidence from In Vitro and In Vivo Studies on Antioxidant Properties. Critical Reviews in Food Science and Nutrition, 2017. PMID: 26517348

Chen N. et al. Effects of protein on green tea quality in a milk-tea model during heat treatment. Journal of Dairy Science, v. 107, n. 12, 2024. https://doi.org/10.3168/jds.2024-25167

Snijman P. W. et al. Antioxidant Activity of the Dihydrochalcones Aspalathin and Nothofagin and Their Corresponding Flavones in Relation to Other Rooibos Flavonoids, Epigallocatechin Gallate, and Trolox. Journal of Agricultural and Food Chemistry, 2009. PMID: 19722573

Johnson R. et al. Aspalathin from Rooibos: A Bioactive C-glucosyl Dihydrochalcone with Potential to Target the Metabolic Syndrome. Planta Medica, 2018. PubMed, PMID: 29388183

Alhazmy S. et al. Harnessing Antioxidants: Investigating Plant and Animal Milk Variants in Matcha Tea's Health Benefits. Phytomorphology, 2025. https://www.phytomorphology.com/articles/harnessing-antioxidants-investigating-plant-and-animal-milk-variants-in-matcha-teas-health-benefits-1102180.html